Sonhar ou agir
Nas ruas de São Petersburgo, o Sonhador caminha sem destino. Perambulando em meio a rostos estranhos, ele os perpassa sem prestar atenção no que acontece a seu redor, enquanto vive mil e uma existências dentro de sua cabeça. Em meio às noites brancas do início do verão, ele conhece uma garota que irá representar a realização de seus mais sublimes sonhos. Ele mal conhece Nastenka, mas já a ama. Em um outro universo, mais contemporâneo, temos outro sonhador. Seu nome é Walter Mitty e ele também é apresentado como uma pessoa solitária e imaginativa. É apaixonado por sua colega de trabalho e sonha em impressioná-la. Se você está ligado em cultura pop, sabe que estou falando sobre o livro Noites Brancas, e sobre o filme A Vida Secreta de Walter Mitty. Mas o que essas duas narrativas têm em comum? Se você pensou que elas são sobre conquistar a garota no final, está enganado. Mas então é sobre o quê? Me acompanha que eu te conto.
Você também bola planos, mas vive no mundo das ideias? Quantos projetos você desenvolveu nos últimos anos e engavetou? Sei bem como é. É quase como uma epifania, um pensamento rápido que passa pela sua cabeça, mas que por algum motivo se recusa a ir embora. Não é o insight mais original do mundo, mas é bom o bastante para você querer pôr em prática, e quem sabe, atingir outras pessoas com isso. Você pesquisa o que é necessário para dar vida à sua iniciativa, talvez gaste dinheiro em alguns materiais e cursos, e então nada. “Talvez eu precise melhorar um pouco antes de começar, não tô pronto ainda” você pode pensar, e o lampejo que antes gerava uma euforia, agora só traz insegurança, e procrastinação. Você a adiciona à pilha poeirenta de projetos esquecidos, e o ciclo se repete.
Acontece, meu caro leitor, que você pode sofrer do mesmo mal que os dois protagonistas, que é o de ser sonhador demais. A diferença entre eles é a forma como cada um se relacionou com a própria condição. Enquanto o protagonista de Noites Brancas, oportunamente chamado de Sonhador, decide voltar à sua vida reclusa, Walter Mitty decidiu dar um passo além e enfrentar os ardis e surpresas que a vida oferece. O problema não são seus sonhos, ou se você vai alcançá-los ou não, mas a maneira que você se relaciona com eles.
Eu mesmo tenho culpa no cartório. Como já citado em um texto anterior, desisti de ter um podcast porque, na minha cabeça, não era monetizável e daria muito trabalho. Criei e abandonei uma miríade de empreendimentos, todos descartados com alguma desculpa sobre não estar preparado o bastante, ou com medo de expor minhas ideias ao público geral e ser criticado por isso. A escrita é um ótimo exemplo. Minha paixão por livros vem desde o momento que aprendi minhas primeiras palavras; talvez até antes disso, já que amava livros com ilustrações de dinossauros. Por admirar tanto a figura do escritor, coloquei o ofício de ser um em um pedestal de marfim bem alto e lustrado. Jamais desenvolvi minha escrita porque sempre estava esperando um insight brilhante surgir, ou achando que não tinha bagagem o bastante para começar devidamente o processo.
O que mudou? Duas coisas: uma foi me tornar psicólogo clínico, e outra foi a reação diante da estagnação criativa. As duas se conectaram de uma forma inesperada, pois foi a experiência clínica que me fez perceber que eu estava estagnado, e pior, inventando desculpas.
Clinicar é muito satisfatório, mas juntamente com a prática vem uma concepção interna de que eu deveria ser coerente para com as coisas que eu falo para meus pacientes. Não adianta nada eu falar que é importante ter uma rotina equilibrada se a minha está um verdadeiro caos. E não adianta eu incentivar meus pacientes a se conectarem com seus valores se eu mesmo não estou fazendo isso. Não chega a ser uma cobrança maluca de que eu devia ser o modelo ideal de pessoa. Muito longe disso. Mas é um verdadeiro tapa na cara quando você percebe que está agindo no modo “faça o que eu digo, não faça o que eu faço”. Isso me fez perceber que clínica é uma relação de troca, onde eu também posso refletir minha vida através da experiência do outro.
Você pode achar que o importante seria o final da jornada, afinal, despender esforço para não dar em nada parece uma perda de tempo. E eu entendo isso, ainda mais se seu sonho for grandioso demais para sua realidade. A tragicidade de Noites Brancas não se dá pelo fato de seu protagonista não ter se realizado, mas pelo fato de que quando a realidade bateu à porta, ele recuou. Walter não é inspirador porque ele fica com a garota dos sonhos no final (desculpa o spoiler), mas porque ele abraçou a incerteza. Se o final do filme fosse outro, o prestígio ainda estaria lá. Afinal de contas, o que importa não é para onde você caminha, mas quem você se torna enquanto caminha.
Por muito tempo, perambulei pelo mundo da abstração, assim como o Sonhador, e hoje, praticando minha escrita por aqui, decidi ser mais Walter Mitty. Para o Sonhador, um minuto de felicidade valeria a vida inteira. Essa ideia é péssima. Prefiro as inseguranças do desconhecido.
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