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Por que nos sentimos atrasados em relação à vida?

Essa semana, em meio a meus atendimentos clínicos, escutei algo de uma paciente que me deixou no mínimo pensativo, e talvez um pouco perplexo. Calma, não foi nada chocante. Ela, na casa de seus vinte e poucos anos, me disse que estava se sentindo atrasada em relação à vida. A frase me fez perceber o quanto eu venho escutando isso com certa recorrência de outros pacientes, e o quanto eu mesmo me pego pensando nisso vez ou outra.

Mesmo vivendo em tempos diferentes de nossos pais, ainda existe uma voz falando dentro de nossas mentes de que deveríamos escolher a faculdade certa, a profissão certa. Ou achar a pessoa que vai ser sua companheira para toda a vida. Que você deve conquistar a casa dos sonhos e o carro do ano, e de quebra arranjar uns pimpolhos para cuidar. Temos aí o exemplo perfeito da família de comercial de margarina. Então eu te pergunto: o que é estar atrasado na vida? Você também se sente assim?

Não é só minha paciente. A comparação está espalhada como uma epidemia silenciosa. Talvez você se compare com um coach mirim fazendo milhões aos 17 anos. Ou com aquele seu antigo colega da escola que ninguém nunca imaginou que fosse chegar lá, e chegou. Ou pode ser que você seja a única pessoa do seu grupo que não namora, enquanto a galera já se casa e tem filhos. Seu sonho não chega nunca, e você tem pressa.

Pega meu exemplo. Comecei minha carreira como psicólogo aos 28 anos, e adivinha só? Também me sinto atrasado na vida (palmas, por favor!). Tive um caminho bem tortuoso até chegar aonde estou hoje. Fiz um mês de Direito e caí fora. Depois entrei em Gastronomia, me formei, e tive problemas nos punhos de forma que precisei abdicar do trabalho braçal que a cozinha exige. Dez anos depois da minha primeira empreitada na universidade, finalmente me formei em algo que me dá satisfação.

Talvez o que mais pesa seja o fato de eu ter passado muitos anos carregando uma depressão que mais parecia uma bola de ferro presa em meu calcanhar. Em alguns anos, ela foi funcional, em outros, debilitante. Aquela sensação de que todo mundo tá correndo atrás do que sonha, enquanto você não consegue nem sair da cama. A sensação que me persegue não é somente a de que eu estou começando a vida tarde, mas também de que perdi meus anos de juventude. É quase impossível não olhar para trás e pensar que se eu não tivesse esse diagnóstico, tudo seria diferente.

No mesmo dia em que eu ouvi essa frase de uma recém chegada na casa dos 20, também escutei de um paciente batendo na porta dos 30. Eu olho para os dois e vejo toda uma vida pela frente. Eu não deveria estar fazendo a mesma coisa comigo? A real é que você só está competindo consigo mesmo, e o mérito está no quanto você consegue se superar dentro do que é possível.

Até pouco tempo, eu tinha pavor de entrar na casa dos 30 sem estar com a vida ajeitada. Mas hoje, finalmente botando em prática o projeto de escrever, de criar conteúdo, e conhecendo tantas histórias dentro do consultório, posso ver que começar “tarde” não é tão ruim assim. A vida não acontece com ela ajeitada, ela acontece com o movimento. Talvez seja isso.

Se esse texto tocou em algo que você vem carregando, podemos conversar sobre isso em sessão.

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