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Se você é bom em algo, deve fazer dinheiro com isso?

Anos atrás, eu estava fascinado por uma série de ficção científica chamada Duna. Vocês provavelmente já ouviram falar, ainda mais depois do hype gerado pelos filmes. Toda a construção do universo de Duna era impressionante, por exemplo, como a cultura dos fremen se relacionava com a água, ou a dependência do império e das outras facções em relação à especiaria. O ponto é que eu queria muito fazer um podcast e falar sobre isso, sobre a história, seu ecossistema, sua política etc. Fui todo animado contar para um parente próximo sobre minha ideia, e a resposta foi desanimadora: “Hm, legal… dá pra ganhar dinheiro com isso?” Respondi que dava, mas no fundo eu sabia que não, e que pensando bem, era melhor abandonar a ideia já que ia perder muito tempo e não ia ver um mísero centavo no bolso. Pensei em fazer outra coisa, algo atrelado à produção criativa e financeiramente satisfatória. No fim, acabei não fazendo nada. Qual era a utilidade disso?

Se você tem alguma habilidade, ou um hobby no qual você se dedica muito, provavelmente pode ter escutado algo sobre monetizar seus talentos. Talvez você cante muito bem, e as pessoas dizem que você deveria tentar a sorte em uma carreira musical; ou você cozinhe muito bem… Que tal participar do Masterchef? Vire criador de conteúdo, faça reels e viralize no Instagram, mas faça de uma maneira que você possa ganhar dinheiro com isso, ou que pelo menos contribua para sua ascensão social. Em um mundo tão corrido e competitivo, você não deveria estar por aí perdendo seu tempo. Time is money.

Me considero uma pessoa com muitos hobbies (até demais), e aquela pergunta sobre o podcast não tinha sido a primeira nem a última vez que escutei algo semelhante. Falar sobre cultura, arte, analisar filmes, ler clássicos e cozinhar são coisas que eu tenho em muita estima na minha vida. E além de me sugerirem produzir algum conteúdo sobre qualquer uma dessas coisas, sejam pessoas próximas ou outros produtores de conteúdo (vendendo curso de como fazer isso), não posso mentir e dizer que eu mesmo não me cobre. Não posso fazer uma macarronada que já fico pensando não somente que eu deveria postar, mas também que eu deveria considerar criar uma página de culinária. E quem sabe criar um canal no YouTube fazendo vídeos falando sobre cinema, ou me tornar um Booktuber? A impressão é de que não posso/consigo aproveitar as coisas que gosto simplesmente pelo seu valor intrínseco.

Em uma sociedade utilitarista como a nossa, tudo tem que ter um valor reconhecido pelos nossos pares, tem que ter uma finalidade que justifique sua energia despendida. Fazer algo sem utilidade é sinônimo de não fazer nada. Se for praticar um esporte, dê preferência para um que seja possível fazer networking, certo? Quer algo para ler? Esqueça os clássicos, são livros velhos e sem sentido. Leia livros de finanças e desenvolvimento pessoal. Prefira a academia hypada, onde se faz networking, à academia de bairro onde as pessoas, Deus me livre, apenas treinam.

Não estou propondo que vivamos alheios ao mundo ou que carreiras não importem. Eu reconheço que não podemos fugir da lógica da nossa sociedade, e que precisamos também crescer em nossas carreiras, ler livros que não sejam apenas ficção e nos dedicarmos a coisas que também rendem frutos práticos. O ponto que trago nessa reflexão é de que não deveríamos nos sentir culpados por estarmos “perdendo tempo” e não fazendo nada demais.

Se você quer mostrar seus talentos nas redes, e quem sabe ganhar uns trocados com isso, sou totalmente a favor. Eu mesmo estou exercendo minha escrita porque ela tem muito valor para mim, e também penso em criar um canal no YouTube. Pois então lanço aqui uma provocação para vocês, que também serve para mim: se você não tiver reconhecimento na sua empreitada, você continuaria fazendo?

Se esse texto tocou em algo que você vem carregando, podemos conversar sobre isso em sessão.

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